Uma fachada preservada, uma parede solitária num terreno vazio, ruas com nomes de antigas montadoras. São Paulo é o berço do carro nacional e parte dessa história ainda está presente na paisagem urbana. Nem todos os antigos galpões e fábricas resistiram à ação do tempo e do mercado imobiliário, mas há prédios praticamente iguais aos tempos em que os automóveis chegavam ao Brasil desmontados, em caixotes, para serem construídos. Dirigir por ruas de São Paulo e da região do ABC é a chance de chegar mais perto dos primórdios da nossa indústria automotiva.
Nosso ponto de partida coincide com um dos primeiros locais
onde se montaram carros no Brasil, quase 90 anos atrás. Em 1921, a Ford construiu um
prédio na rua Sólon, no Bom Retiro, para abrigar sua primeira linha de
montagem, dois anos depois de inaugurá-la na rua Florêncio de Abreu, no centro.
Ali, nos arredores da Estação da Luz, os Modelo T dominavam as ruas hoje
tomadas pelas confecções e lojas de roupas. O prédio não escapou da ação de
pichadores, mas mantém sua fachada original de tijolos aparentes. Nos fins de
semana, a tranquilidade do local ajuda quem quiser imaginar o vaivém dos
calhambeques ou simplesmente contemplar a charmosa construção.
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Na década de 20, os Ford Modelo T eram fabricados e exibidos
na rua Sólon
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Parte do complexo hoje é ocupado pelo Central Plaza
Shopping, que em 2010 passou a ser vizinho da estação Tamanduateí de
metrô. “O shopping foi construído no lugar da antiga linha de montagem. O
refeitório e o centro médico também não existem mais”, diz o jornalista Flavio
Gomes, entusiasta e colecionador de DKW. O único prédio que resiste ao tempo
abrigava a sede administrativa da Vemag. Suas janelas foram fechadas para
afastar curiosos como o próprio Gomes, que chegou a entrar no local para
coletar pedaços da antiga fábrica e guardar como recordação. Em 2006, ele
procurou os atuais donos do terreno para sugerir uma restauração parcial da
fachada, mas as conversas não prosseguiram. Hoje, a referência mais direta ao
passado é o endereço: rua Vemag.
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Da linha da Vemag no Ipiranga saiu a pioneira perua DKW
Universal
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O antigo prédio administrativo da Vemag é o único de pé
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Movimento migratório
Dirigindo por mais alguns minutos, chega-se ao primeiro
endereço da General Motors no Brasil, também situado no Ipiranga. Em 1925, a marca americana
começou a montar carros em um galpão na avenida Presidente Wilson, ao ritmo
inicial de 40 unidades por dia. Em dois anos, a linha cresceu e passou a contar
com 800 funcionários. Em busca de mais espaço, a GM migrou para São Caetano do
Sul em 1930, mas grande parte da antiga estrutura foi preservada.
Por trás dos portões que cercam a propriedade, é possível
ver que os galpões permanecem de pé, bem como a casa que abrigava a sede da
Companhia Geral de Motores S.A. “Chegamos aqui na década de 90 e o local já
estava reformado. A restauração preservou as características originais do
prédio”, diz Marisa Martinez, gerente de marketing da Alfatest, empresa de
autopeças e reparação automotiva que hoje ocupa o imóvel.
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Primeira sede da GM no Brasil, instalada em 1925
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O galpão no Ipiranga ainda preserva a fachada da primeira
sede da GM no Brasil, instalada em 1925
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De volta à avenida do Estado, o viaduto Pacheco Chaves leva
à antiga fábrica da Ford. Com o sucesso dos modelos T e A, a montadora recebeu
autorização da matriz para erguer uma unidade ainda maior que a do Bom Retiro.
Das dependências da avenida Henry Ford saíram modelos que, com algum esforço,
ainda hoje são vistos por aí, como Galaxie 500 e a picape F-100, ambos
equipados com motores V8.
O complexo parou sua produção em 2000, depois de enfrentar
vizinhos incomodados com o barulho e a transformação de tantas indústrias do
bairro em novos empreendimentos. Parte da fábrica da Ford foi abaixo e vai dar
lugar a um shopping center. Nos poucos prédios remanescentes, vestígios do passado
insistem em se fazer presentes, como o logotipo oval azul que a tinta branca
não consegue apagar por completo.
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No bairro do Ipiranga, a Ford produzia tratores e modelos
com Galaxie e F-100
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O prédio em breve vai dar lugar a um novo shopping center
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Viagem sem volta
Nem todas as antigas fábricas, porém, permaneceram de pé. Ao
chegar ao Brasil, em 1953, a
Volkswagen alugou um armazém na rua Manifesto para começar a montar os modelos
Sedan e Kombi. O antigo imóvel de fachada branca, que no início tinha apenas 12
funcionários, foi demolido e deu lugar a um atacadista de alimentos. Em 1959, a Volks foi para o
complexo da rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo, último destino do nosso
roteiro.
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Armazém alugado na rua do Manifesto
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Deu lugar a um atacadista de alimentos
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Complexo da rodovia Anchieta,
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Da fábrica instalada na área vizinha à montadora alemã,
saíram carros de três marcas diferentes, entre as décadas de 40 e 80. A primeira a ocupar o
local foi a Varam Motores S.A., que montou veículos da americana Nash. Pouco
tempo depois, chegou a vez da francesa Simca, famosa pelos sedãs Chambord e
Esplanada. Mais de 50 000 unidades saíram da linha de montagem até 1965, quando
a Chrysler adquiriu o controle acionário da marca na França e assumiu suas
atividades por aqui.
A produção de Simca durou até 1969 e foi substituída pela
fabricação de modelos Dodge. Foi assim até 1981, quando a Volks assumiu o
controle definitivo da unidade e deu início à produção de caminhões. Essa linha
foi encerrada em 1990 e a antiga fábrica foi demolida. Desde 2006, o local abriga
um centro de distribuição das Casas Bahia. Mesmo sem vestígios concretos,
lugares assim sempre vão guardar a memória das primeiras fábricas de carros no
Brasil.
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A Simca produzia seus sedãs no local que hoje abriga um
depósito das Casas Bahia
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A Simca produzia seus sedãs no local que hoje abriga um
depósito das Casas Bahia
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EXTINÇÃO
No ABC, um prédio pode entrar nessa galeria de fábricas
desativadas. A matriz da Karmann faliu e encerrou suas atividades na Alemanha.
O futuro da filial brasileira, que montou o esportivo VW Karmann-Ghia e o jipe
Land Rover Defender, ainda é incerto.
| Filial brasileira da Karmann Ghia no ABC |
A cidade de Rio Claro (SP) também faz parte dessa história.
Como outros exemplos de fábricas desativadas, porém, as lembranças concretas do
passado estão desaparecendo. A cidade abrigava desde setembro de 1969 a linha da Gurgel
Motores. De lá saíram os utilitários Xavante e Carajás e o BR-800, compacto
100% nacional, entre outros. O sonho de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel,
que morreu em janeiro, terminou em 1993, com o pedido de concordata que
culminou na falência da empresa, em 1994. O terreno foi vendido por 16 milhões
de reais e será ocupado por um condomínio de luxo.
Fonte:
Quatro Rodas Digital














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Olá, poderia fornecer o link para a matéria original? Muito obrigada e parabéns pelo trabalho!
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